quarta-feira, 4 de julho de 2012

Brisas de mudanças




Dinheiro na cueca; mensalão; Mensalão do DEM; oração da propina, entre outros (muitos outros). O Brasil, de certa forma, tem se acostumado a ver rotineiramente escândalos e mais escândalos envolvendo a classe política. E, como se já não bastasse assistir o patrimônio público ser constantemente dilapidado, assistimos também os mesmos políticos, em que votamos para que representem nossos interesses, se concedendo aumentos salariais, indenizatórios, de verba, etc, etc, etc., dignos da Coroa Inglesa. Toda essa mordomia bate frontalmente com a qualidade de prestação dos serviços e direitos sociais que, na verdade, não passam de OBRIGAÇÃO do Estado. Não (nunca, jamais) de “bondade” da classe política.
O povo brasileiro, acostumado com palavras como “Corrupção” e “Impunidade”, muitas vezes se limitava a (na hora da raiva, nunca nas eleições) apontar a mãe dos políticos nas esquinas da noite. Sujeitos como Sarney (que é praticamente dono do Estado do Maranhão); Collor (sem comentários); Renan Calheiros, Paulo Maluf, etc., sempre metidos em algum problema com a Justiça, mas que, nas eleições seguintes, voltam ao poder “carregados nos braços do povo”. Rindo mais que tudo no mundo. Sem esperar nunca uma reação da Justiça. Até com certa dose de razão, se levarmos em conta nosso histórico nesta área.
Dizer que todos os políticos são desonestos é tão errado quanto dizer que todos são honestos. Assim como em qualquer lugar, há pessoas honestas e pessoas desonestas. A desonestidade, infelizmente, é uma das várias imperfeições que são coladas ao ser humano. Portanto, onde houver ser humano, haverá desonestidade em maior ou menor grau. No entanto, a diferença está em como uma nação decide enfrentar e lidar com essa imperfeição humana. Muito se fala que “Corrupção só existe no Brasil”, mas ela é algo presente em absolutamente todos os países do mundo. O que nos destaca dos mais desenvolvidos é que temos um sistema que, não somente deixa de punir o desonesto, como também o premia. É o famoso “jeitinho brasileiro”. Deste modo, ao furar uma fila, receber troco a mais e não devolver, ver algo caindo do bolso de alguém e não devolver, pagar o velho conhecido “toco” do guarda para não ser multado, etc., estamos reforçando, mesmo sem querer (ou querendo) um sistema corrupto.
A grande mídia também tem seu papel na atual situação. De vez que tem uma performance e abordagem totalmente voltada para a lógica do mercado. Visando não somente o lucro bruto, mas principalmente a manutenção de um contexto de opressão, desigualdade socioeconômica e exploração. Busca formar uma massa igual e homogênea, ditando os valores da sociedade, seus costumes, ideias e pensamentos (ou a falta deles), gostos, comportamentos, sentimentos, etc. Enfim, reforça preconceitos e estereótipos baseados única e exclusivamente nos seus interesses, nunca da população.
Percebendo os serviços sociais (saúde, educação, infraestrutura, saneamento básico, dentre outros) cada vez mais sucateados, os salários parlamentares completamente desproporcionais à realidade nacional (em dezembro de 2010 foi aprovado aumento de 62% para deputados e senadores, e 140% para a Presidência e os Ministros), cansados do cenário descrito acima e sem ver mudanças sociais significativas, um grupo de brasileiros resolveu unir a vontade de mudanças à tecnologia. Através do Facebook, juntaram-se e resolveram fazer a diferença.
Através de diversas ferramentas de interação virtual como o Facebook, Orkut, e-mails e abaixo-assinados, e com o apoio de diversas instituições que lutam contra a corrupção, tais como OAB, CNBB, foram organizadas marchas simultâneas em todo o Brasil no dia 7 de setembro de 2011 pedindo, entre outras coisas, o fim da corrupção, a declaração de constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/2010) e a revogação do aumento citado acima. O movimento tinha como princípios o Apartidarismo (proibição expressa da presença de partidos e políticos, apesar do respeito às posições políticas individuais), Pacifismo, Popular e Democrático. É um movimento do povo para o povo, em defesa dos interesses genuinamente populares.
As passeatas têm se repetido, geralmente nas datas nacionais significativas como 15 de novembro, 21 de abril, etc., e com adesão de cada vez mais pessoas. Apesar de os grupos terem se diversificado (surgiram OPECC – Organização Pernambucana Contra a Corrupção –; NasRuas.PE; Anonymous, etc.), a idéia principal do movimento permanece uma: Mudar um sistema corrupto que privilegia alguns poucos poderosos enquanto a população continua a passar necessidades de todos os tipos e tamanhos. Apesar de recentes, esses movimentos vêm conquistando diversas vitórias neste ano de 2012. Por exemplo, a declaração de constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa pelo Supremo Tribunal Federal (STF); Em Recife, o grupo OPECC organizou e conseguiu ver aprovada a Lei Ficha Limpa Recife, que aplica os critérios aplicados na Lei da Ficha Limpa para os cargos em comissão municipais.
As bandeiras atualmente acampadas são as que pedem a revogação do aumento concedido ilegalmente de 62% aos salários dos vereadores do Recife; a votação da Proposta de Emenda Complementar (PEC) que acaba com o voto secreto no Legislativo (Municipal, Estadual e Federal); 10%  do PIB para a educação, dentre outros.
Esse tipo de movimento social mostra que os brasileiros, ainda que timidamente, tem mostrado uma mudança na forma de ver e se posicionar diante dos abusos de seus representantes. Estamos saindo da passividade de reclamar em frente à TV, para irmos às ruas e lutar por nossos interesses cobrando de quem deve, por obrigação e não favor, fazê-lo. Mas não faz.
Julius Cavalcanti
Psicólogo



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